Na tarde de sexta-feira, 15 de novembro de 1974, feriado nacional, tempo aberto, calor intenso, minha mãe, Zenádia Onofre de Freitas, me levou ao Grupo Escolar Coronel Joaquim José Taveira, localizado no Largo da Matriz, estabelecido em outubro de 1971. O prédio, com suas paredes brise-soleils (quebra-sóis), popularizadas por Le Corbusier, foi edificado no terreno onde outrora funcionara, desde 1939, a Escola Normal Rural Senhora Santana, que, a partir de 1955, tornara-se o Ginásio Normal São José. Antes existira a cadeia pública. Caminhamos pelas ruas Curado e Santana, no trajeto desde a Avenida Getúlio Vargas, quase em frente à Praça Silva Júnior, onde morávamos. Ainda existiam alguns casarões quase na esquina com a Rua Itabaiana. Aos 28 anos, mamãe estava grávida da filha caçula, Nébia, que nasceria no mês seguinte. Usava um vestido reto alaranjado escuro. Permaneci no corredor, enquanto ela entrava na seção da 41ª zona eleitoral, quando procurei observar a movimentação dos eleitores, cabos eleitorais e fiscais. Percebia-se o clima de disputa, as palavras ríspidas e zombeteiras daquelas pessoas.
Quase metade da população adulta, de acordo com a Constituição de 1967, encontrava-se impedida de votar, desde Itajá a São Sebastião do Tocantins. Segundo dados do Tribunal Regional Eleitoral, presidido pelo Desembargador Fausto Xavier de Rezende, Goiás tinha 1.134.785 eleitores inscritos. Votaram 866.126 pessoas. A abstenção atingiu 268.659 cidadãos.
Duas agremiações apresentaram seus candidatos à Câmara dos Deputados e à Assembleia Legislativa. Àquela, a Aliança Renovadora Nacional (ARENA) conquistara oito vagas e o Movimento Democrático Brasileiro (MDB), cinco. Quanto à Alego, o MDB ficara com quinze cadeiras e a ARENA, vinte e duas.
O niquelandense José Curado Adorno, filho de Thomaz Zuzarte Adorno e Celuta de Paula Curado, disputava um assento na Assembleia, pela ARENA, obtendo 8.568 votos, ficando como suplente. Porém, assumiria a cadeira em março do ano seguinte, quando Francisco de Freitas Castro, ex-jogador de base do Atlético Goianiense, pioneiro no ramo dos supermercados em Goiás, indicado pelo governador Irapuan Costa Júnior, passou a administrar Goiânia.
Ao Senado tudo parecia indicar sucesso fácil da situação. No entanto, essa vaga gerara desentendimento entre os primos Caiado Leonino, governador, e Emival, senador eleito em 1970, casado com minha conterrânea e parente Maria Joaquina Fleury Curado. Vendo-se sem espaço no partido para buscar a reeleição, Emival renunciou, cinco meses antes do pleito.
A ARENA lançou Manoel dos Reis e Silva, branco, olhos pequenos, lábios finos, nascido em 1927, natural do Barro Preto (Trindade), ex-coroinha do Padre Pelágio Sauter, redentorista alemão, médico formado pela Universidade Federal de Minas Gerais, fundador da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás, ao lado de Francisco Ludovico de Almeida Neto, e professor na área de otorrinolaringologia. Um dos pioneiros do Country Club, presidente da Sociedade Goiana de Pecuária e Agricultura, presidente do Banco do Estado de Goiás (BEG), prefeito de Goiânia, entre 1970 e 1974, quando se tornou conhecido como Manoel Fogueteiro, por inaugurar obras com muita festa. Favorito, Manoel dos Reis angariara ostensivo apoio da quase totalidade dos prefeitos do interior.
Seu adversário era o jovem advogado Lázaro Ferreira Barbosa. Proveniente de Campo Formoso (Orizona), cabelos densos, sobrancelhas espessas, trabalhara como engraxate, faxineiro, agricultor, balconista, porteiro de hotel, passador em uma lavanderia e datilógrafo no Rio de Janeiro. Bacharelara-se em Direito pela Universidade Católica de Goiás.Oriundo do extinto PSD, tinha no currículo político apenas a suplência de deputado estadual, alcançada em 1966. Puro azarão.
Ao contabilizar os sufrágios, os primeiros boletins das urnas davam ampla vantagem ao Doutor Manoel, levando seus correligionários a comemoram a vitória. Surpreendentemente, quando passaram a contabilizar as cédulas de Goiânia e Anápolis, o cenário inverteu. O escrutínio final decretou 56,74% para o então obscuro jurisconsulto do sudeste goiano.
As lideranças da ARENA justificaram a derrota de Manoel dos Reis como resultado da insatisfação da classe média, sobretudo nas cidades de Goiânia e Anápolis, que recorreram ao voto como punição à situação econômica e política vivenciada pelo Estado. A carestia, a inflação e o arrocho salarial minaram o discurso de prosperidade da ARENA. Lázaro Barbosa utilizou esses dados no rádio e na televisão. Ademais, a mídia expôs muito o candidato oficial, ligado ao regime militar, diante de uma população que ansiava por liberdades civis.
Concluído o dever cívico, mamãe retirou-se da seção. Retornando ao lar, contemplávamos as antigas construções em torno da Matriz, onde residiam o Padre Luiz Maria Olabarrieta y Luja, CMF, Luiz Taveira, Teófilo José Taveira, Genoveva Onofre da Silva, Benedito Itagiba da Silva, Dula Nunes da Fonseca, Delfino Taveira, Rita Ribeiro, José Pereira da Costa. Em tempos remotos, ali moraram José Joaquim Francisco da Silva, Francisca de Souza Santiago, Paulo Francisco da Silva, Theodolina Josefina Taveira, Delfino de Paula Curado, Francisca da Silva, Joaquim Francisco Santiago. Adiante, na Rua Santana, o casarão de Joaquim Adorno e Ana Ribeiro Camelo.
Incontáveis santinhos espalhados nas poeirentas ruas. A boca da noite avizinhava-se.
Em breve, as urnas despertariam sorrisos e lágrimas.
Pe. Edilson Ribeiro de Freitas
Chanceler da Diocese de Uruaçu-GO
Nascimento: 15/07/1967
Ordenação: 17/12/2006
E-mail: edilsonrdefreitas@gmail.com









